Tudo pelo que passamos segue uma
certa linearidade. Começo e fim; nascimento e morte; apresentação e conclusão. Entre os dois pólos criadores e destruidores de tudo, existe um movimento constante, um meio, uma
transição. Podemos observar que praticamente tudo na vida tem esse fluxo entre o princípio e o fim. Essa transitoriedade tem, a princípio, muito a ver com a ideia de
crise.
Entre a ideia e o resultado, passamos por essa crise, na qual desenvolvemos a ideia com um determinado fim; no entanto, devemos nos
esforçar para que o conceito possa ser esculpido em um produto final. Isso é, basicamente, um dos aspectos do caminho a ser trilhado na vida e na dinâmica do
cosmos. Define as tribulações pelas quais passamos e que muitas vezes não entendemos.
O
homem é o
exemplo vivo da crise. Durante a
Idade Média, o homem europeu pôs de lado seus valores hedonistas para se dedicar a um só Deus; logo depois, sua
Renascença, ainda medieval pôs em descrédito o obscurantismo medieval e passou a valorizar a índole humana.
A epistemologia humana entrou em crise. No campo
artístico, o homem
quebrou muitas vezes o seu ideal de "
arte", passando por processos de
naturalização e
abstração constantes. Isso veio a agravar com a vinda da fotografia, que causou um abalo sísmico nos cânones clássicos até então vigentes.
Thomas Kuhn (1922-1996), quando descreve o desenvolvimento da ciência, cita as Revoluções Científicas como quebras de paradigmas, quando as estruturas teóricas de uma ciência normal não são mais suficientes para explicar os fênomenos científicos, sendo que nesse período de crise, surgem várias teorias críticas que tentam explicar o caos momentâneo instaurado no momento. As grandes Revoluções, como a Francesa e a Russa, são crises anômalas que quebram o poder vigente.
Karl Marx (1818-1883) mostrava que essas grandes revoluções se davam por um movimento dialético, inspirado na teoria hegeliana, no qual duas classes (
tese e
antítese) chegavam ao ápice do antagonismo, estourando em uma
síntese que transformava toda a base (
infraestrutura) da sociedade. Assim, para Marx, a sociedade perfeita se chegaria através de várias
sínteses, que apareceriam como revoluções, marcando as crises.
A adolescência é outro exemplo de um período no qual o indivíduo, em sua construção constante e busca por um resultado, no caso a autoafirmação da personalidade, entra em
crise. Além disso, seu organismo passa por transformações para tentar se adequar a uma vida que, em tempos primitivos, seria dedicada a caça, coleta e reprodução em massa, transformados hoje em
stress cotidiano, acúmulo de bens e relacionamentos.
Mas a transição, apesar de esforçada, sempre é tem seu caráter construtivo, não só por seu resultado, mas pelo seu processo em si. Assim como a
lagarta, que precisa se trancar em um casulo, onde sofre uma
metamorfose, para depois romper as paredes do mesmo e abrir voo como uma bela
borboleta, o quadro que precisa ser pintado, a música que precisa ser executada, o livro que precisa ser escrito, etc. Tudo é, como dizia
Heráclito (540 a.C.-470 a.C.),
devir - a chama do processo, um
vir a ser constante. Ou, nas belas palavras de
Lenine: "
precário, provisório, perecível, falível, transitório, transitivo, efêmero, fugaz, passageiro; eis aqui um vivo, eis aqui um vivo..."
Hoje, esse blog pelo qual vos escrevo completa três anos. Embora a mente canse e enfraqueça, surgindo uma vontade de fechá-lo em alguns momentos, ele não parece realmente ter fim. Desde o tempo em que ele surgiu, percebi o caráter transitório da vida, e a dinâmica das
crises, que surgem em todo organismo vivo e em toda a natureza. Afinal, nada é perfeito. O ser humano, em sua sede pela
imortalidade,
pensa que o próprio planeta é perene. Ledo engano! O que todos devemos perceber é o caráter transitório de tudo, afinal,
vivemos o hoje: o passado é um delicioso saudosismo e o futuro é desfocado e incerto.
Falô aí.
Obs.: não foi uma grande surpresa, eu sei. Houve poucas alterações: apenas o banner foi mudado, e o template ganhou uma pequena mudança. Provavelmente vou diminuir o número de tags e vou limpando um pouco mais o blog, tentando deixar ele mais ágil e simples. Mas cada coisa a seu tempo.Obs. 2: além dos posts de aniversário de 2008 e 2007, recomendaria ler esse daqui.