sábado, 12 de fevereiro de 2011

Um estereótipo do designer

(talvez eu não seja a pessoa mais indicada pra falar sobre o assunto, mas sou um inquieto que tem pensado sobre, e acho que isso basta pra iniciar uma discussão.)

Nesse quase um ano em que tenho me entitulado "estudante de design", estive a pensar sobre vários assuntos que fazem parte do escopo da área. Inclusive, confesso, pensei mais de uma vez em largar o curso - em alguns momentos, isso passa ainda vagamente pelo meu confuso encéfalo. Mas hoje resisto mais, e tenho maior determinação em terminar e seguir em frente, seja fazendo especializações ou outra graduação - ainda sou novo, dizem, e não penso que tentar outra coisa seja tempo perdido.

Como provavelmente já dissera outrora, comecei a amadurecer minhas ideias principalmente a partir do N Design do ano passado, em Curitiba. Por lá, também amadureci um pouco como pessoa, o que me favoreceu por completo no âmbito acadêmico. Desde então, tenho enfrentado a faculdade com mais empenho e planejamento futuro. Também a partir de lá tenho pensado mais a fundo sobre o que é design e o que significa ser um designer.

Foi lá, aliás, que "participei" de uma discussão sobre Filosofia do Design, com o Marcos Beccari e Ivan Mizanzuk, que mudou minha maneira de enxergar o campo - as aspas se devem ao fato de que eu não participei de fato da discussão, já que eu mesmo não tinha muito o que dizer naquele momento. Agradecimentos ao meu veterano Fernando Cacciolari que me levou por acaso à discussão depois de me ver perdido em uma fila de uma outra oficina. A partir daquele momento, passei a me interessar no assunto, já que tenho um interesse de vida pela Filosofia.

Venho acompanhando discussões sobre, mesmo que periodicamente me distancie desse assunto por semanas. Inclusive, venho acompanhando o "irmão" desse "movimento", se posso chamar assim, que é a filosofia AntiDesign, expressada principalmente a partir do AntiCast, um podcast bem-humorado sobre design e cosas mas. Me interessei pelos dois não só devido a minhas inconstâncias sobre a profissão, mas também por uma necessidade de entender melhor tudo isso.

Continuando o que vinha dizendo no segundo parágrafo, durante esse primeiro ano como designer em potencial, tentei observar os problemas e incoerências que circundam o meio. Algo que sempre esteve presente na caminhada, inclusive acadêmica, foi o papel do designer. Para nós, somos deuses, porém incompreendidos e vilipendiados pelo resto da sociedade. Que dó! Temos a solução para todos os problemas que envolvem necessidades humanas, mas eles não sabem disso. Uma visão um tanto mesquinha que temos de nós mesmos, não?

O designer tem uma sede por definição. Ele sempre precisa ser algo. Se não deus, é algum tipo de mágico ou cientista. Talvez artista, artesão, arquiteto ou engenheiro. Ultimamente, quer ser até administrador. Não acho isso ruim, afinal a interdisciplinaridade é um dos pontos fortes da profissão, mas essa vontade desenfreada de ser três em um tem inflado seu ego a ponto de o próprio definir-se como deidade.

Devido à esse salto-alto que o designer insiste em usar, estamos confundindo a defesa da profissão com agressão sem sentido. Não discutimos mais nosso papel na sociedade ou as consequências de nossa profissão, e sim se um personagem de novela representa bem um designer. Olhamos com ojeriza àqueles que ousam falar logomarca por uma simples ignorância etimológica e nos comparamos com médicos quando o assunto é respeito à profissão, como se o respeito devido à cada uma tivesse de vir do mesmo lugar. Nos orgulhamos de ter um diploma e de ser uma profissão reconhecida na academia, enquanto centenas de designers se formam sem preparação para o mercado. Bradamos o baixo nível de exigencia de nosso curso pelo fato não termos muitas provas pra fazer, como se já entrassemos na universidade sabendo de tudo - e depois reclamamos dos micreiros.

Sim, eu percebi que estava me tornando um desses. E o ramo já não aguenta mais estereótipos do designer-deidade. Nossa profissão é uma das mais humanas que temos, como clamava, incompreendido, o tema de trabalho acadêmico que fiz na universidade ano passado, designer: criatura criadora. Construímos e somos constantemente construídos, somos fogo, somos devir. Somos uma pura indefinição. Não sabemos a que campo de conhecimento realmente pertencemos, não sabemos exatamente quando essa profissão começou, e nem sabemos se é realmente uma profissão. Não sabemos nem ao menos o que design significa, mas isso não nos impede de seguir em frente e discutir essas questões, afinal somos incompletos como humanos. Como ensaiou o próprio Vilém Flusser (foto), filósofo que trabalhou usou o design e as mídias contemporâneas como tema, não resolvemos problemas, e sim criamos obstáculos para tentar resolver nossa condição humana.

Deixemos de nos proclamar designers-deidades e passemos a nos considerar pessoas comuns, parte de uma cultura que se desenvolve há milhares de anos. Quem sabe assim não conseguimos o respeito tão almejado?

Falô aí.

1 comentário(s):

  1. Infelizmente tenho mudado de ideia sobre a profissão do designer. Acho que é uma profissão que entedia fácil e que tem um difícil relacionamento com o cliente. Antes via como a profissão quase como a do "inventor", era uma profissão incrível em que se via uma necessidade e elaborava algo para suprí-la. Que ingenuidade, no último semestre descobri por livros de marketing que inventar algo precisa fazer inúmeras análises e aconselha-se que não seja lançado no mercado algo tão inédito.

    Enquanto isso vi alguns trabalhos independente, são fascinantes, a maioria não é comercial.

    Antes mesmo de terminar a faculdade já estou entediada e penso em trancar. Olho para a profissão como só mais uma que corre atrás de tendências o tempo inteiro para sobreviver, que se submete a opiniões de clientes contraditórios.

    Se o design no Brasil vai evoluir, acredito que sim, mas vai na verdade vai ignorar os potenciais daqui, como sempre, em qualquer outra profissão.

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Sobre o ocioso que aqui escreve...

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Estudante de Design Gráfico na Universidade Estadual de Londrina; músico e escritor - amador em ambos, e em constante construção; pseudopensador nas horas vagas; um (fracassado/persistente) aproveitador da vida.

Talvez o mais avassalador efeito alucinógeno não seja o de drogas, mas sim o do ócio, puro e nefasto, que nos tenta irresistivelmente à procrastinação, mas que ao mesmo tempo cria poderosos frutos criativos em nossa consciência.

"Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista."

BUKOWSKI, Charles. PULP, 1994, tradução de Marcos Santarrita.