domingo, 3 de outubro de 2010

ZERO ZERO


Algumas considerações sobre as eleições e sobre a democracia brasileira:

00) Hoje foi a primeira vez que votei na vida. A sequência foi a seguinte: branco, branco, nulo, nulo, branco e branco. A ordem não faz diferença. Mas, de forma nenhuma estou contestando a democracia. Eu, como eleitor, tenho DEVER de votar, mas também tenho o DIREITO de me abster. Infelizmente, voto no Brasil é obrigatório, mas ainda bem que temos o botão branco e o número 0 para podermos opinar. Não deixei de votar por descaso, mas sim porque não tinha certeza. Além disso, não vou votar no menos pior ou no que eu mais simpatizo sem o devido conhecimento de suas propostas, sua índole e sua ficha.

01) Voto consciente devia ser o único voto obrigatório. Não vejo sentido no voto forçado, como dever cívico. Se lutamos tanto pela democracia e liberdade de escolha, por que somos forçados a escolher entre a escória que, de quatro em quatro anos, espalha papelotes de santinhos pela rua e fazem promessas demagogas, que na maioria das vezes desaparecem no viés do tempo? Voto devia ser um direito, usufruído por aqueles que realmente sabem o que estão fazendo. Conscientização sim, obrigação não. Talvez se o voto fosse facultativo, não haveriam tantos Tiriricas ocupando cargos importantes na hierarquia política e fazendo piada com a nossa situação.

02) Eleição é coisa séria. A piada acaba quando a gente enfrenta a urna. Aqueles doze botões não servem para sacanear ninguém, a não ser a si mesmo. O que está em jogo nessa hora é o futuro de praticamente 190 milhões de pessoas, que muitas vezes é jogado no lixo por uma falta de opção. Por isso, vejo o voto obrigatório como um dever desnecessário. Muitas vezes, o que define o voto acaba por ser um santinho jogado na rua, um artista do showbiz, um jingle pegajoso ou um departamento de marketing. Votos alienados que ajudam a construir um Brasil alienado, dominado por seus governantes. Uma pirâmide invertida, na qual o pobre continua pobre, clichê sem fim da sociedade.

03) Partidos são empresas e a eleição é uma grande disputa de mercado. O melhor estrategista, a mais forte propaganda, a maior verba e o mais carismático representante acabam arrebatando uma grande fatia do público. Quase não há interesse na melhora da sociedade e na vontade da população. As eleições que a gente vê hoje não são disputas saudáveis! Não seja inocente! Partidos maiores tem melhor (e maior) propaganda televisiva, melhores discursos, maior poder de alcance. Sua glória é construída em cima disso, e funciona! Esse é o grande problema nosso: nas eleições, quem ganha é quem faz mais boca de urna.

04) Já notou como sempre há dois polos norteadores de cada eleição? O de direita e o de esquerda. Dessa maneira, eles ganham fatias diversas do "mercado eleitoral". Na verdade o que vem por trás dessas oligarquias é o desejo de vencer e se estabelecer no poder. A ideologia do voto. Briguinha de comunista e capitalista não encanta mais ninguém. Daí, entram novos nomes e ideias na jogada. É um ciclo incansável.

"[...] talvez em algum tempo, político no Brasil já tenha tido uma ideologia, uma posição... hoje em dia, se tá pra direita, se tá pra esquerda, só influencia em qual lado da cueca cabe mais dinheiro."

05) O que move as pessoas é o dinheiro. "Is the root of all evil today", diziam os Floyd. Infelizmente. Não é surpresa alguma que existam ladrões. Temos de sobreviver na selva de pedra, e tudo custa dinheiro. O que surpreende é o fato de que mesmo os políticos, engravatados que perambulam o Congresso Nacional, "precisam" de um trocado - daí tanta corrupção. Sustentar família, comer putas, construir palácios e ainda fazer uma baita campanha política demanda uma baita grana.

E o homem moderno ainda acha que vive numa democracia? Acha que tem alguém o representando?

E os nossos direitos?
E a vontade de fazer política sem interesses escusos?
O que realmente importa?

06) O mais triste é saber que toda essa palhaçada é reflexo de nossa sociedade. E a sociedade é reflexo de seu contexto. Ou seja, estamos envolvidos em um marasmo que parece não ter fim. Não descarto as coisas boas que, sim, existem. Mas nem por isso temos de aguentar o país do jeito que é e está - e nem aguentar a população que o habita. Não me excluo disso e assumo a responsabilidade também, afinal sou parte do povo.

07) Aguentemos os políticos que colocamos no poder, mas não deixemos eles impunes. Democracia, como o próprio nome diz, é o governo de quem elege. Por que o contrário?

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08) Um adendo posterior: lia o blog do Inagaki e achei um post que fala sobre quão besta são as pessoas que anulam seu voto. Não é por isso que desvalorizo as opiniões do nipônico, porém - assim como diz outro texto dele, mais atual - tenho meu direito de discordar. Não me achei realmente maduro pra escolher algum representante, por isso anulei os votos, e tomo a responsabilidade. Não acho que isso faça de mim uma besta alienada, apenas mais uma voz a bradar asneiras por aí sem sentido. Sei que decisões políticas afetam diretamente a minha vida, mas prefiro me abster à contribuir com mais um voto sem sentido. Como disse anteriormente, sou a favor do voto facultativo e acho que devem votar apenas os que sabem o que estão fazendo, independente de sexo, idade e posição social. Não penso hoje como Calvin, da tirinha postada no mesmo texto do Pensar Enlouquece - confesso que pensara assim há alguns anos. Prefiro afirmar minha posição perante a sociedade quando eu realmente estiver seguro dela - não significando que eu seja, mesmo assim, incapaz de errar.

Falô aí.

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Sobre o ocioso que aqui escreve...

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Estudante de Design Gráfico na Universidade Estadual de Londrina; músico e escritor - amador em ambos, e em constante construção; pseudopensador nas horas vagas; um (fracassado/persistente) aproveitador da vida.

Talvez o mais avassalador efeito alucinógeno não seja o de drogas, mas sim o do ócio, puro e nefasto, que nos tenta irresistivelmente à procrastinação, mas que ao mesmo tempo cria poderosos frutos criativos em nossa consciência.

"Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista."

BUKOWSKI, Charles. PULP, 1994, tradução de Marcos Santarrita.