domingo, 26 de setembro de 2010

Epopéia de fim de semana

Noite. Rua deserta. Carro estacionado poucos metros a frente de um quebra-molas. O vento gelado passeia por três rapazes que, encostados no capô daquele velho Uno, bebem e jogam conversa fora. Ali, problemas de faculdade e algumas reflexões sobre a vida entre um gole e outro. Vez ou outra cruzavam por ali senhores embriagados, despejando mágoas apoiadas em temáticas sobre aceitação e mulheres. Solitários, beijando latinhas de alumínio e cantando versos toscos de amor, tentavam se interar com o grupo. Socializar. Socializar e beber.

E beber.

Os bêbados de meio de estrada eram só o começo de uma noite que serve como narrativa, feito introduções sem um sentido aparente. Tais ébrios acabaram por não acompanhar a noite épica e ficaram pelo caminho, cantando melodias desafinadas - quase poetas! Suas filosofias diluídas em litros de cachaça Jamel ditaram o espírito da noite.

De lá, entrada no barzinho para ouvir um Chili Peppers no capricho. Nisso, cantadas que serviam quase como aforismas hermeneuticos com a recepcionista do boteco. Risadinha sacana aqui, assinatura garranchada ali, e sem perceber o ambiente escuro circundava os senhores. Mesas lotadas, sendo a visita ao fumódromo a única oportunidade de um canto vazio para papear. Foi motivo para algumas tragadas para um ou outro. Nisso, pensamentos metafísicos, estatísticas incomuns e a ideia de chocolate como meio de driblar uma TPM. Sabedoria popular.

Como em um filme, o desenrolar da narrativa acontece de acordo com a trilha sonora. Grooves e riffs acompanham a trama se desenvolvendo. Piadas, conversas, olhares engendrando perspectivas. Ideias. Desejos. A menina de óculos, vestida como uma secretária, para pra pensar na tese de que seu companheiro a deixou sozinha na pequena multidão que se formava para ver o espetáculo. Deixada no altar - ao menos era como uma versão reduzida da ideia. Isso, depois de um dos protagonistas prostrar-se à ela e comentar sobre o fato de seu namorado ser um cuzão, com o perdão da palavra. O fiel escudeiro que estava ao lado da pseudosecretária, como sempre, tenta proteger a jóia do suserano. Fora um "vaza" não verbal, descrito apenas em gestos de expulsão com a mão esquerda. Ignorado sumariamente, é claro.

Em meio a isso, mais papos filosóficos, algumas tentativas de trotes telefônicos embriagados no celular e a voz de uma francesinha tentando patéticamente falar "sim" a uma pergunta qualquer; estava acompanhada, o que impedia um possível intercâmbio cultural, de qualquer maneira. Seguido a isso, beberrões provando a tequila com sal e limão e uma garota ao longe, que ficou, como dito na tal noite, orbitando no assunto enquanto caras aleatórios junto a ela faziam piadinhas escrotas - o que rendeu boas risadas alheias.

O enredo se complicava e, em uma sequência lógica, chegou-se a um clímax. Lá estava um homem de dois metros de altura, ébrio, torrão e brigão - apelidado carinhosamente de "Zé Galinho". Seu Zé arranjava confusões por aí afora, pensando ser o engraçado atrás daquela cortina de álcool gasoso saindo de suas baforadas. Talvez pensasse ter duplicado de tamanho - o que seria um belo trauma pra qualquer pessoa normal; na cabeça dele, era como se duplicasse também de importância. Dono do mundo, metia-se em qualquer aproximação que contivesse um leve tom sexual, com suas piadinhas à la Zorra e seu jeito desengonçado de ser.

Zé metia-se a besta com um dos personagens principais e, em questão de segundos, o ameaçava com uma long neck. Parecia que ia rolar briga de bar, como aquelas que passam em filmes, pra esquentar a narrativa. Adrenalina subindo, enquanto rostos vermelhos e tensos se encaravam, tóraxis lançando-se a frente, numa gestualidade inconsciente de se provar mais forte. O sacana abusava do tamanho e prometia rasgar-lhes as gargantas com cacos de vidro, mesmo sem ter usado tais palavras. Tudo isso pra quê? Pra beber em casa, sozinho, aquele. Os camaradas do sujeito ficaram envergonhados de tudo aquilo e pediram desculpa. Mais de uma vez. Para não dizer que a discussão foi inútil, serviu para esquentar a noite, compensando a garoa fina e cálida que caía dos céus.

A partir daí, eram invencíveis - mesmo tendo ficado pela superfície de uma briga de botequim. A história rendeu pra ser contada pra seguranças, garçons, senhoras e meninas. Se o Zé Chato tivera na cama a essa hora, não tinha pra mais ninguém. Seguiu-se dali urros e taradices pelas ruas molhadas. Senhoras de idade que usufruíram (ou ao menos tentaram usufruir) de prazeres mundanos por alguns dos que estavam no grupo foi a temática de anedotas que se seguiram até a porta de outro bar, onde tocara outrora uma banda com um nome referente a circuitos elétricos. Um dos amigos, coadjuvante daquela noite em especial, encontrou-se com eles para papeação enquanto a namorada consertava problemas emocionais. Outro, com um cadeado (literal) no pescoço, também parou pra papear. Pouca coisa, nada demais.

Povo, então, amontoado no Uno, bem ao estilo beatnik, sem saber onde parar. Tinham já quase fechado um bar, e agora abriam uma feira. Pastéis, vinagrete até onde couber e máximas poéticas envolvendo tango e olhar. Dicas de um lobo da noite que tomara destilado até o rabo naquela madrugada. Depois disso, mais um bêbado de rua.

"Pra onde ceis tão indo?"
"Para o fim do mundo!"
"Que é isso de ir pro fim do mundo?"
"Fim do mundo é o fim de noite!"

Fim do mundo foi o fim de noite. Belo final pra um pequeno épico de sábado a noite.

Falô aí.
Obs.: quebrando a seca de textos, relembrando o meu apogeu no final do ano passado. Apesar de tudo, saudades daquele tempo.

5 comentário(s):

  1. kkkk muito louco o jeito que você construiu a história. ao mesmo tempo que descreve uma cena nos detalhes da asa para imaginação

    agora "aforismas hermeneuticos", que porra é esta??? tive que procurar no dicionário, apesar de que no texto o significado destas palavras tornam-se claras.....

    po meu coloca umas palavras mais fáceis, para tornar mais acessível o blog aos "nao muito inteligentes" grupo que faço parte .... kkkk

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  2. "Aforismas hermeneuticos" é mais uma piada interna do que tudo. Tenho amigos que fazem Direito e vivem falando em Hermeneutica. Tanto é que introduzem o termo inclusive quando falam em chegar na mulherada.

    Aforisma veio das aulas de Filosofia, quando estudavamos os pré-socráticos, como Heráclito, que usavam pequenas frases (aforismas) para passar seus ensinamentos. Algo parecido com Twitter hoje, mas de uma forma bem mais... ÚTIL.

    No todo, seria um modo mais singelo de se falar "cantadas de pedreiro". Mas não é essencial para o andamento da estória que, aliás, possui um tom autobiográfico - exceto pelo carro no começo, já que eu não lembrava se era um Uno ou um Fiat 174...

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  3. "cantadas de pedreiro" kkkkk, ja tinha interpretado diferente, interpretei de uma forma mais sugestiva, vc jogava os fatos de uma forma direta, descrevia, só que eles não estavam completos.. cabia a pessoa interpretar...kkk

    percebi que era autobiográfico... kkkkkkkk

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  4. É algo do tipo. Aquele migué de duplo sentido, sabe?

    Gostei do que você falou, sobre eu descrever a cena "nos detalhes" e ao mesmo tempo dar "asas a imaginação". Ninguém nunca tinha me falado isso. Acho que isso acontece porque eu não coloco os nomes dos personagens e omito bastante coisa - deixo muito do "subentendido". Será?

    E é tão evidente a autobiografia no texto?

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  5. A brother.. na verdade eu imaginei que seria uma autobiografia... talvez por conhecer algumas características suas, ainda mais contando uma história louca...kkkk
    seria dificil vc não ter vivido...

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Sobre o ocioso que aqui escreve...

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Estudante de Design Gráfico na Universidade Estadual de Londrina; músico e escritor - amador em ambos, e em constante construção; pseudopensador nas horas vagas; um (fracassado/persistente) aproveitador da vida.

Talvez o mais avassalador efeito alucinógeno não seja o de drogas, mas sim o do ócio, puro e nefasto, que nos tenta irresistivelmente à procrastinação, mas que ao mesmo tempo cria poderosos frutos criativos em nossa consciência.

"Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista."

BUKOWSKI, Charles. PULP, 1994, tradução de Marcos Santarrita.