domingo, 2 de maio de 2010

O charme do erro

O olho humano é, de modo análogo, uma câmera. A retina retém informações e nossa estrutura cerebral transforma essas sensações visuais em percepções. Pelo fato de ser biológico, orgânico, o olho apresenta suas pequenas imperfeições. Apesar de nossa visão captar o ambiente de maneira fantástica, somos passíveis de erro, tanto na recepção quanto na interpretação da imagem. Ironicamente, esse fator torna nosso exercício visual algo instigante. Talvez seja por isso que fotografias antigas prendam tanto nossa atenção.



O processo de obtenção de imagens baseadas na realidade tem fascinado o homem há muito tempo. Desde que nos conhecemos como produtores de imagens, tentamos copiar nosso olhar e captar a realidade. A descoberta do processo fotográfico foi um marco que nos permitiu captar a luz e, desde então, o homem tratou de aperfeiçoá-lo.

Hoje, fotografias de alta qualidade conseguem se passar por realidade, mas o interesse de muitos paira sobre o processo fotográfico antigo, experimental, que se aproxima da imperfeição humana. Por que fotos antigas, em branco e preto, nos trazem tanto afã? A fotografia dos dias de hoje, com todos os processos digitais e facilidade de edição, parece tão perfeita - tão "fria", se me permitem a nostalgia.

Talvez o que é antigo, como o vinil, o datilógrafo e o daguerreótipo, nos traz tanto fascínio por estarem longe de nosso uso ou por terem marcado gerações; talvez sejam interessantes por transmitirem um estilo; quem sabe por fugir da nossa realidade? Todos, aspectos que contribuem, mas não mais do que o fato de que eles têm um "que" de orgânico, fluido, inexato. Trazem margem de erro, aproximando-se da experiência humana. São aconchegantes.



Enfim, apaixonamo-nos por coisas orgânicas, não? O toque humano que temos em uma fotografia antiga nos reconforta e nos faz lembrar do que somos: seres imperfeitos observando o mundo a sua volta.

Falô aí.
Obs.: texto feito para introdução de um trabalho sobre fotografia estenopéica e fotograma.
Obs. 2: se quiser dar uma olhadinha nas fotos que eu tirei com a minha pinhole de lata para esse trabalho, confira minha galeria no Flickr.

2 comentário(s):

  1. Eu adoro as fotos em preto e branco, pois transmitem um certo romantismo e singularidade através da imagem. Não entendo lhufas nenhuma disto, gosto de imagens coloridas e tal, mas se eu fosse fotógrafo, seria sim um amante das imagens em preto e branco. Faz com que nossa imaginação trabalhe, tentando descobrir os elementos do ambiente. Tem algum fundamento nesse comentário? Preciso parar de tomar tanto café...

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  2. muito boa a reflexão..e claro... as fotografias..

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Sobre o ocioso que aqui escreve...

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Estudante de Design Gráfico na Universidade Estadual de Londrina; músico e escritor - amador em ambos, e em constante construção; pseudopensador nas horas vagas; um (fracassado/persistente) aproveitador da vida.

Talvez o mais avassalador efeito alucinógeno não seja o de drogas, mas sim o do ócio, puro e nefasto, que nos tenta irresistivelmente à procrastinação, mas que ao mesmo tempo cria poderosos frutos criativos em nossa consciência.

"Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista."

BUKOWSKI, Charles. PULP, 1994, tradução de Marcos Santarrita.