segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Mais um dia de Ócio...

Hoje começou oficialmente o calendário escolar para a maioria das pessoas. Não para mim dessa vez. Desde 1999, começo as aulas em algum dia de fevereiro, junto de várias escolas, cursinhos e algumas faculdades. Após onze anos seguindo a mesma rotina, você acaba acostumando. Talvez essa tenha sido uma causa inconsciente, ou talvez seja só uma coincidência, mas planejei ir ao centro para tirar algumas fotos 3x4 justo hoje. Tinha isso em mente desde sexta-feira, mas só ontém fui lembrar que era o mesmo dia do retorno às aulas - para a maioria. Por isso, combinei com alguns amigos de encontrá-los na frente do Sigma - mesmo cursinho em que eu cursara ano passado. Soa meio nostálgico, não?

Acho que, no fundo, sou muito apegado ao passado. Pelo menos às coisas que mais me tocaram. Não tenho uma memória muito boa quando se trata de lidar com dados cotidianos, e talvez isso faça com que eu grave mais o que me parece especial. Quando lembro dos tempos de pré-escola, só me veem à cabeça três amigos que eu tinha, fora alguns fatos marcantes, como a primeira visão de uma genitália feminina em um banheiro que não tinha divisão por gênero(...). Do primário, as visões mais vívidas são de uns poucos amigos, do inspetor Pedro, de uma bananeira que tinha por ali e de uma menina em especial. As lembranças tornam-se mais claras a partir de 2004, quando me envolvi com música e quando passei a consolidar melhor minha personalidade - coisa de puberdade. A partir daí só vão ficando mais nítidas.

Essa fluidez com a própria memória impele-me a reviver experiências. Nessas férias, passei por vários lugares que marcaram minha caminhada: a pré-escola, no caminho da padaria, da qual não cheguei a completar o ano por má-adaptação; o Machado de Assis, colégio no qual fiz o Ensino Fundamental e pelo qual eu passei há um mês para ver como tudo estava; a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, que me trouxe amigos, me ensinou a abrir a mente e pela qual, ironicamente, passei a contestar seus próprios dogmas; o Colégio de Aplicação, que trouxe-me bons amigos, senso crítico e várias memórias pelas quais me apeguei demais. Cada um deles proporcionou-me reações diferentes, mas nenhum vai apagar-se da memória.



Passei pelo Sigma hoje, após muito estresse no caminho devido a engarrafamentos enquanto eu estava dentro de um ônibus lotado sentindo o típico calor tropical que tem assolado Londrina nos últimos tempos. Cheguei por volta das 11:50 e repousei em algum corrimão qualquer da entrada. Infelizmente, haviam tirado a cobertura que transformava aquela fachada em um lugar seguro pra se proteger do calor ou da chuva. Haviam quatro catracas na entrada - visão essa muito diferente daquela do ano anterior, na qual só havia um portãozinho na entrada e um vão pelo qual qualquer um podia passar se tivesse uma carteirinha do Sigma e fosse esperto o suficiente. Pessoas passaram por mim enquanto o sol insistia em queimar minha pele.

Alguns minutos por ali e apareceu uma conhecida na minha frente. Tinha passado na UEL também, assim como eu. Era alguém que mexeu com a minha cabeça no meio do ano passado, mas que hoje, como outrora, era só mais uma amiga. A via no colégio de segunda a sexta, sempre sentada há cerca de um metro de mim. À tarde, estudava no Sigma comigo, mas sentávamos em locais distantes - ela, na primeira fila, e eu, na última. Talvez por ela estar tão presente naquele momento, eu tenha misturado as coisas. Pensei errado e/ou agi errado. Enfim, não importava mais. Estávamos ali, ambos esperando por alguém, e o passado era passado. Embora eu sempre me apegue um pouquinho ao pretérito, mas isso não vem ao caso agora.

Ela não me reconheceu, mesmo estando bem em frente a mim. Talvez tenha sido o estrago que fizeram na minha cabeça logo após o resultado, dia 12 de janeiro, ou o boné, que eu nunca usava. Usava um daqueles óculos escuros grandes, que cobrem todo o olho e não deixam transparecer muitas expressões. Não demorou muito para eu perceber que ela era ela, mesmo ela estando bronzeada e com aqueles óculos. Olhei meio sem reação, comecei a procurar o olhar dela naquele mar negro e resolvi acenar até, como se faz com alguém com o olhar vago. Meio babaca mas funcionou. Ela sorriu e a gente conversou um pouquinho. Não sei muito o motivo, mas sempre travo em frente a ela, e isso é algo que vem desde antes de eu a notá-la, ano passado. Diferentes mulheres, diferentes reações. Nunca fui nenhum Don Juan, mas com algumas eu tenho meu charme. Não era esse o caso.

Ambos esperáva-mos alguém. Com o sol a pino, o clima era um pouco desconfortável. Como sempre, dentro do Sigma as coisas são bem mais agradáveis - desde que você não esteja estudando, é claro. Tinha vontade de comprar algo para beber, mas o sistema de segurança era mais - digamos - "pesado". Mas não tardou. A turma de manhã do extensivo já estava saindo. Vários rostos desconhecidos, mas ao mesmo tempo vários conhecidos. Pessoas do colégio que não tinham muitos planos para vestibular ano passado estavam lá, se comprometendo com o curso. Outros que infelizmente não passaram estavam lutando por suas vagas, como bons brasileiros que são.

Com alguns dos amigos que eu tinha combinado indo embora, pus-me a esperar o astro da festa, que dividia os almoços comigo ano passado. O Balboa. Eu sabia que ele sempre era o último a sair da sala, mas a espera me cansava. Ele nem sabia que eu estaria ali, não era com ele que eu tinha combinado, mas o que custaria eu esperar mais um pouco para bater um papo? Após um tempo, ele apareceu com outros dois camaradas de guerra. Risadas, cumprimentos e papo furado. Assim fechou-se aquele momento epicurista, que há de se tornar mais raro a medida que o tempo passa.

Enquanto isso, eu e mais tantas pessoas aguardamos e agonizamos até o dia primeiro de março, quando realmente se despedirão de novo as velhas manhãs de Ócio em troca de trotes, cervejadas, seminários e afins; logo, assim que eu arranjar algum emprego, as tardes também vão se por e a rotina voltará a corroer, e instigar nossos corpos. Viva lá vida e foda-se o resto, dizia alguém em algum lugar. Filosofia de vida.

Falô aí.
Obs.: outros "fins de Ócio"? Aqui (2007), aqui (2008) e aqui (2009).
Obs. 2: a partir do dia 2 de março eu vou poder ser preso se cometer algo ilícito. De verdade.

1 comentário(s):

  1. q lindo ser citado como bom "lutador" q sou!!!
    so tente não morrer dia 1°
    shaushuaushuahs

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Sobre o ocioso que aqui escreve...

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Estudante de Design Gráfico na Universidade Estadual de Londrina; músico e escritor - amador em ambos, e em constante construção; pseudopensador nas horas vagas; um (fracassado/persistente) aproveitador da vida.

Talvez o mais avassalador efeito alucinógeno não seja o de drogas, mas sim o do ócio, puro e nefasto, que nos tenta irresistivelmente à procrastinação, mas que ao mesmo tempo cria poderosos frutos criativos em nossa consciência.

"Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista."

BUKOWSKI, Charles. PULP, 1994, tradução de Marcos Santarrita.